23/10/2006 ..

God save the Queen e o milho verde da praia!


Bem, nossa Rainha ainda não apareceu. Ensaiou, mas não apareceu. Então o banquete fica suspenso por enquanto. Ordens da cozinha!

Enquanto isso, já que a gente não consegue parar quieto mesmo, hoje tem T&D na nossa casa laranja à beira do canal. Vamos nos esbaldar de dançar, cozinhar, comer e sorrir...

Será que a vida precisa de mais do que isso?

Foi um final de semana chuvoso aqui no Rio, mas devo admitir: eu adoro! Sou gaúcha - apesar de carioca na alma – então adoro tanto um clima mais fechadinho, quanto à luz que ilumina a lagoa em dias de verão!

Além disso adoro casacos, tenho vários, não posso encontrar um diferente que acabo comprando, mesmo sabendo que poderá demorar até que tenha a oportunidade de usá-los!

Adoro passear pelo calçadão em dia chuvoso, de casaco. É uma outra dimensão do calçadão. Outra visão, outras possibilidades, tão boas quanto às de um dia ensolarado, se olharmos com bons olhos.

O mar fica lindo, intenso, mais poderoso do que nunca. Posso passar horas sentada na calçada com meu Frederico olhando o seu movimento denso, a sua cor profunda. O movimento do mar nesses dias é único, soberano.

As pessoas parecem que se concentram mais profundamente nos seus pensamentos, mergulham mais fundo em si mesmas num dia como esses. Pode ser porque não há alternativa, mas funciona.

O milho verde vendido na praia é sempre o melhor de todos, mas nesses dias é muito mais! A temperatura quentinha parece que aconchega, a manteiga dá o tom e o sal o ritmo da melodia. Cada mordida está profundamente conectada aos pensamentos mais diversos.

No que você pensa quando morde um milho quentinho, polvilhado com sal na medida certa e manteiga em absoluta abundância?

Eu penso em muita coisa, normalmente ao mesmo tempo, sou geminiana, a minha inquietação me permite proezas como essas! Mas penso principalmente em como pequenos prazeres como esses podem ser intensos e inesquecíveis, assim como um dia chuvoso.

Até!
20/10/2006 ..

Viva! Dia de festa!


O post de hoje tem esse nome e só poderia ter esse nome. Por muitos motivos, mas vamos nos concentrar em dois.

Primeiro porque “Viva!” para nós diz tudo em poucas palavras e de maneira simples e absoluta. E isso para alguém como eu, minimalista por opção e devoção, é uma delícia!

Segundo porque hoje, e sempre diga-se de passagem, a Viva! está em festa!

Por quê?

Ora, por quê? Finalmente recebemos uma visita de estado!

Abram os champagnes – de preferência um Bollinger geladíssimo, meu preferido! Se quiserem um pouquinho de história, de tradição e respeito à vinicultura aí vai: http://www.champagne-bollinger.fr/ além tudo é um site que tem perlage, um luxo! E para completar: http://www.zahar.com.br/champanhe_intro.pdf, outro sonho, um amuse-bouche do livro: “Champagne, como o mais sofisticado dos vinhos venceu a guerra e os tempos difíceis”, da editora Zahar, um primor.

Depois disso, que soem os tambores, estiquem o tapete vermelho, chamem o cerimonial para as honras de estado e avisem à cozinha que o banquete vai começar!

Será que estamos preparados Senhora Presidente? Justo agora que o sistema entrou em pane? Ontem perdi uns quatro posts de uma só vez...isso depois que o meu computador resolveu fazer as pazes comigo, lá pelas 22h!

Ah! Seja o que Deus quiser, afinal, a vida não imita a arte? Pois é, no também maravilhoso livro da jornalista Luciana Fróes – “Chamem o Chef”, da editora Ediouro, lançado essa semana e do qual tenho a honra de fazer parte – fica bem claro: imprevistos acontecem em qualquer cozinha e a vida e os banquetes continuam!

Então a chef e seu staff já estão com a cozinha a todo o vapor e o banquete de estado será o seguinte:

Amuse-bouche

Tomatinho no garfo!

(não precisa explicar, precisa?)

Pargo em compota de milho doce

(será que alguém ainda se lembra daquele tempo em que ainda éramos tímidos?)

Ravióli de batatas e trufas brancas

(passamos o ano inteiro esperando quando outubro chegar...só para servir esse prato! Ele dura apenas uns três dias no nosso menu, mas reina triunfal todos os anos e nos enche de alegria!)

Codorna assada em geléia de pimentão

(uma das estrelas da nossa coleção primavera 2006 no RS!)

Consommé frio de pêssegos e nectarina

(o maior sucesso da coleção primavera 2006 no RS!)

e...para fechar com chave de ouro: kri!

Senhora Presidente Ana, Senhora Primeira Ministra Bia, Senhor Ministro Cláudio, Senhora Ministra Lidiane, Senhora Ministra Laila, Senhora Ministra sumida Luciana e Senhora embaixadora Andréa, estejam prontos e em posição de homenagem para receber: Vossa Majestade a rainha CLÉO!

Reverência e...música Ministro!

Até!
18/10/2006 ..

Blogs, porque tê-los, mas se não tê-los como detê-los?


Ando estudando um pouco essa história de blogs. Vai que sou convidada para mais alguma mesa redonda...Tenho que estar preparada!

Vocês lembram bem. Entrei aqui quase que por acaso, sem saber pra onde olhar, com quem falar, ouvindo as vozes que chegavam de todos os lugares e atordoada com a idéia de não poder responder a todos imediatamente!

Acabamos inaugurando uma nova técnica “blogueira”: a de interagir nos comentários! Foi um sucesso, pegou de imediato, acredito que tenha a ver com a proximidade, a sinceridade e acima de tudo, a simplicidade, sempre. É simples falar de igual para igual, a qualquer hora, dizer o que vem a mente sem parar para pensar. Deixar rolar! Let it be, com os Beatles, Ministro!

Andei navegando por aí e percebi que alguns blogueiros andam aderindo a essa forma pouco ortodoxa na linguagem dos blogs. Então é isso, ajudamos a descobrir a América na internet.

Tecnicamente pode não ser o correto, mas, um pouco de humanidade - ou, no nosso caso – uma explosão de emoções, pode fazer bem até aos corações mais duros. Que bom! Só isso já vale a festa que fazemos aqui todos os dias.

Fico sempre pensando na galera contra o misto quente quase perfeito, comendo o queijinho safado na frente do computador todas as noites, atentos à janelinha e loucos de vontade de voar para dentro. Alguém duvida?

Outro dia quase levamos o Ego ao colapso, quando resolvemos falar todos ao mesmo tempo durante a madrugada! Foi um caos total e, diga-se passagem, divertidíssimo!

Ontem, no meio de uma terça-feira para lá de estressante, recebi duas confrades para o almoço, Andréa e Bia. Rimos muito, falamos todas ao mesmo tempo, fomos e voltamos a Paris, Bruxelas, Londres, sem sair da cadeira. Recebi presentes, geléias Bonne Maman de morango, chocolates Godiva, peças lindas de design, lembranças de uma viagem de conto de fadas...

Meu mau humor perdeu o sentido.

Contos de fadas sempre terminam assim: com um sorriso verdadeiro estampado no rosto. Foi assim que terminamos, foi assim que começamos e assim seguiremos, quebrando regras, rompendo limites, mesmo que nem sempre a gente domine os termos técnicos!

Viva a emoção, pura e sem conservantes! Viva!

Até!
17/10/2006 ..

O jornal de hoje limpa os vidros amanhã...



Ando muito reflexiva ultimamente. Acho que foram os acontecimentos sucessivos. Todos bons, maravilhosos na verdade, mas que acabam mexendo muito com a gente.

Ver o seu trabalho ser reconhecido e respeitado de maneira tão intensa é incrível e ao mesmo tempo assustador. Os dias têm sido uma loucura, a repercussão é fantástica e a sensação de estar remando na direção certa não tem preço.

Mas ao mesmo tempo em que tudo isso acontece, a vida continua, o batente é pesado, a rotina não perdoa e o mais importante: tudo continua igual. Nós somos as mesmas pessoas, solitárias e malucas na nossa busca obstinada pela excelência que não existe.

Sempre digo para a minha equipe: tudo isso é maravilhoso, é o reconhecimento de muita dedicação, de uma doação quase que absoluta, de uma busca incessante pelo melhor. Mas tudo isso passa, amanhã o jornal de hoje estará embrulhando o peixe que o nosso peixeiro mandará nos entregar.

Cheguei mais cedo outro dia no restaurante e o senhor José, nosso auxiliar de serviços gerais, estava se preparando para limpar os vidros do restaurante, quando tocou a campainha. Ele desceu para atender e eu me sentei à mesa, nossa mesa de jantar, que naquele momento servia apenas para apoiar o limpa-vidros, os panos e algumas folhas de jornal que ele usa para dar o brilho final.

Acomodei meu café preto e minha broa de fubá que havia acabado de comprar às 7 da manhã na Cadeg, lugar aonde vamos todas as terças-feiras bem cedo comprar frutas, legumes e flores para o restaurante. A broa custa um real e a fatia é tão grossa que dá para dividir em três!

Resolvi dar uma olhada no jornal enquanto ele não vinha, como numa típica cena de café da manhã, com se a minha vida me permitisse isso ainda! Levantei o jornal e dei de cara comigo estampada na primeira página, o jornal do dia da premiação! O que estaria fazendo ali?

A resposta: era o jornal que o senhor José ia usar para limpar os vidros da cozinha!

Roubei rapidamente a primeira página, antes que ele retornasse e rumei para a cozinha morrendo de rir!

Até!
16/10/2006 ..

Os 8 tipos de cortes de tomates?


Desde que estamos por aqui, passo o dia observando o mundo de maneira diferente, procurando nos detalhes do dia-a-dia os assuntos que iremos discutir.

A reflexão já fazia parte do meu trabalho, aprofundar o olhar, a percepção, a pesquisa em cada ingrediente faz parte do meu dia-a-dia. Criar uma biblioteca precisa de sabores, texturas, temperaturas e sensações dentro da cabeça, foram, desde o inicio, a única maneira que encontrei para estabelecer uma conexão segura entre a emoção e a criação.

Extrair duas, três, quatro texturas de uma simples abóbora me encanta, me instiga, me atormenta. Pensar nela em diferentes perspectivas, extrair o melhor e o inusitado, sem, de maneira alguma, ferir a sua integridade, aí está à ciência no meu modo de ver e pensar a gastronomia.

Respeito novos conceitos, pratico uma gastronomia moderna, portanto preciso deles. Mas não venham querer me convencer de que instrumentos que não sejam facas, fouets, peneiras e panelas possam fazer parte da minha cozinha. Simplesmente não consigo imaginar.

Explorar texturas, cortes e espessuras utilizando simplesmente uma faca e uma placa de corte pode ser tão interessante e instigante quanto a pesquisa científica dentro de um laboratório repleto de tecnologia.

Oito tipos de cortes de tomates causaram tanta surpresa? Talvez mais do que o uso de equipamentos científicos na cozinha?

O estranho me parece tão simples... Cada um tem o seu papel e cada papel foi pensado, estudado, avaliado e sentido profundamente. A técnica está implícita, a emoção também e o resultado passa por uma profunda reflexão dividida entre três elementos fundamentais: sensação, elegância e harmonia.

Às vezes sirvo no restaurante um amuse-bouche extremamente simples, que eu particularmente adoro: um pequeno tomate orgânico do tamanho de uma azeitona gorda, cortado ao meio. Espetamos cada metade em um pequeno garfo e salpicamos cada uma com algumas pedrinhas de flor de sal, açúcar orgânico e pimenta do reino moída na hora. Acomodamos cada um em seu prato e regamos com o mais puro azeite de oliva que tivermos. Finalmente acomodamos em cada um, uma fatia extremamente fina e recém tirada de parmiggiano reggiano e uma folhinha fresquíssima de basílico. E assim, simplesmente assim, eles seguem seu destino até a mesa.

Normalmente esse prato é o que chamamos de surpresinha da Chef. Não está no menu, aparece de uma hora para outra, entre um prato e outro sem ser esperado. O maître não explica, apenas diz que se chama: tomatinho no garfo.

É um prato complexo. Extremamente difícil de ser compreendido na minha opinião. Por isso não sirvo sempre. Apenas quando o sentimento me diz que alguém poderá mergulhar profundamente nas nuances da simplicidade.

Um dia, depois de um jantar de 12 pratos, alguém me disse que jamais esqueceria o tomatinho no garfo...

Depois disso, para mim o mundo se divide entre os que compreendem o tomatinho no garfo e os que não compreendem.
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